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Projeto Político Pedagógico do Curso

As últimas décadas foram palco de um acelerado processo de transformações sociais, políticas e tecnológicas. Nesse cenário impuseram-se novas exigências e novos desafios, inclusive, para a História. O papel da História e o perfil do seu profissional ganharam uma visibilidade e uma amplitude indiscutíveis, sobretudo, quando se coloca em evidência um contexto, no qual, como afirma Hobsbawm, a “destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal às gerações passadas – é um dos fenômenos mais lúgubres do final do século XX” (1996:13).


Além de se apresentar como a ciência do passado, a História se manifesta também como a ciência do presente. Compreendendo-a dessa forma - dentro de sua própria historicidade e dinâmica -, consideramos que ela, ao refletir sobre o passado, deve preocupar-se igualmente com a realidade imediata, pois é a partir do momento presente que se articulam as questões sobre o passado e se constroem os materiais essenciais de nossa identidade e memória, os quais orientarão nosso futuro. Nesse sentido, seu olhar dirige-se tanto para o passado como para o presente, e, aliás, é este presente que acaba por construir historicamente o passado.


Esses elementos colocam em evidência a necessidade de se estabelecer uma visão histórica que articule as mais variadas temporalidades e espacialidades. Essa articulação tem por finalidade uma integração entre conteúdos e temáticas, nos quais seja possível a percepção da pluralidade de: sociedades, classes sociais, culturas, etnias e formas de pensamento. Partindo desses pressupostos, consideramos como elemento fundamental a aceitação da História como um campo de possibilidades, no qual o homem constitui-se como seu principal objeto.


Nessa perspectiva, a História apresenta-se: como um conhecimento com múltiplas potencialidades; como o campo complexo da diversidade de pensamentos que orientam o próprio fazer historiográfico; um espaço problemático e, por isso mesmo, rico, no qual é possível entendermos que a História é uma construção, tanto compreendida no espaço prático das ações humanas, como nas interpretações realizadas pelos historiadores sobre essas ações. A reflexão histórica é também uma tomada de posição e de direção no mundo. É o reconhecimento de que não existe uma separação entre teoria e prática, uma vez que consideramos que o fazer historiográfico é também uma prática histórico-social, um aspecto do próprio fazer humano.


A sua importância como instrumento da prática social e de construção de identidades, vem tomando relevante dimensão nos mais diferentes espaços, isso porque, nesse processo, a História possibilita ao indivíduo a construção de um conhecimento reflexivo-crítico sobre o mundo em que vive e atua. No entanto, é preciso ressaltar que nem sempre a História foi compreendida dessa maneira. Assim como o final do século XX foi marcado por um crescente abandono do passado, foi no contexto desse século, que a História, enquanto campo do conhecimento, passou por suas mais profundas reformulações. Essas transformações partiram do reconhecimento de que a perspectiva histórica dominante durante quase toda a história da História, foi àquela atrelada aos acontecimentos políticos, uma História pragmática que mais do que compreender sociedades, civilizações e culturas esteve preocupada em perpetuar e legitimar poderes. Tais pressupostos orientaram, conseqüentemente, a estruturação dos cursos de História, de forma geral, e, particularmente, no Brasil, que conservou até as últimas décadas do século XX, uma visão tradicional e etapista do conhecimento histórico.


A despeito de uma série de novas questões colocadas à escrita da História no século XX, no ensino ainda prevalecia um modelo tradicional e conteudista, que longe de formar cidadãos críticos, preocupava-se tão somente em capacitar reprodutores de conteúdos, sendo que a produção do conhecimento ficava totalmente desvinculada nesse processo. Isso torna evidente um dos grandes desafios colocados à História, qual seja: o de superar a separação entre a academia e as escolas de ensino fundamental e médio. Não é de hoje que se constata o grande abismo que separa a universidade e a educação básica, sendo a primeira responsável pela produção do conhecimento e a segunda vista como mera receptora dessa produção.


De forma resumida, podemos pontuar três momentos na constituição dos cursos de História no Brasil. O primeiro, no século XIX (e que acaba prevalecendo em boa parte do século XX), ligado à construção de uma identidade nacional, ensejada como um dos objetivos centrais das elites intelectuais brasileiras, para as quais a História teria o papel na elaboração de ícones e paradigmas políticos. Tal perspectiva servia para respaldar a formulação de uma História nacional e nacionalista, vinculada à necessidade de organização do Estado nacional brasileiro. É necessário ressaltar a ação dos Institutos Históricos como importantes mecanismos na elaboração e na defesa de uma História que reforçava um projeto político centralizador para o Brasil.


O segundo, nos anos 60, no qual alguns historiadores tentaram pensar uma História mais crítica, desvinculada da visão elitista. Nessa perspectiva, produziu-se uma série de materiais teóricos-metodológicos, num movimento denominado: “História Nova”, de inspiração marxista, sendo duramente reprimido. É também representativo desse período o surgimento dos cursos tecnicistas, os quais procuraram responder à demanda desenvolvimentista desencadeada nos anos 50, e efetivada durante o regime militar, que acabou por cristalizar o ensino superior para a elites e o ensino secundário para as massas. Inegáveis foram os prejuízos à disciplina e aos cursos de História, com a implantação dos chamados cursos de Estudos Sociais, resultantes dessa orientação.


No Brasil, as reflexões mais efetivas sobre as mudanças no campo da História, englobando ai: produção acadêmica, ensino e pesquisa, começam a se apresentar nos anos 70 e 80. Neste período os cursos superiores em História se consolidam como espaço de discussão acadêmico-política. É, também, nesse momento, que os Programas de Pós-gradução começam a dar os primeiros resultados concretos na produção de uma historiografia renovada, pretendendo romper com os pressupostos positivistas ainda intimamente vinculados à produção acadêmica brasileira e ao ensino de História. Nesse contexto, é importante destacar a atuação da ANPUH como espaço de discussão para os professores de história, além, de uma notória expansão do mercado editorial, acentuando uma crescente divulgação de obras historiográficas, tanto de historiadores brasileiros, quanto de estrangeiros, que influenciavam a produção nacional.


Em todo o país, esses elementos vieram reforçar a necessidade de reestruturação dos cursos de História, procurando transformá-los em um espaço de discussão e produção do conhecimento que contemplasse, tanto os debates em torno da historiografia contemporânea, como de nossa sociedade, na qual, mais do que nunca, impunha-se como fundamental, a formação de cidadãos ativos e conscientes de seu papel como agentes históricos e como produtores do conhecimento histórico.


A partir dessas questões, o curso de História da Universidade Regional do Cariri, através de seu Projeto Político Pedagógico, insere-se no contexto geral dessa discussão, que diferentemente de estar restrita à nossa área de atuação, é resultado de um amplo processo de reflexão sobre a organização dos cursos superiores, bem como, da educação básica de nosso país. Sobre a questão educacional, acrescenta-se, ainda, a necessidade de melhoria do ensino público como condição capital para que se superem as históricas desigualdades presentes em nossa sociedade.


Considerando as disposições legais, como a Resolução CNE/CES 13/2002 do Conselho Nacional de Educação que estabelece as Diretrizes Curriculares para os cursos de História , e fornece os instrumentos legais que deverão orientar a construção do Projeto Político-Pedagógico, estruturamos nosso Projeto levando em consideração a inclusão da nova disposição da carga horária destinada à prática e ao estágio supervisionado na licenciatura em História, assim como os demais itens previstos naquela Resolução. Conforme prevê a referida Resolução em seu artigo 2º.,


O projeto pedagógico de formação acadêmica e profissional a ser oferecido pelo curso de História deverá explicitar: a) o perfil dos formandos nas modalidades: bacharelado e licenciatura; b) as competências e habilidades - gerais e específicas a serem desenvolvidas; c) as competências e habilidades a serem desenvolvidas na licenciatura; d) a estrutura do curso, bem como os critérios para o estabelecimento de disciplinas obrigatórias e optativas do bacharelado e da licenciatura; e) os conteúdos curriculares básicos e complementares; f) o formato dos estágios; g) as características das atividades complementares; h) as formas de avaliação.”

A formulação de nosso Projeto Político Pedagógico é, por conseguinte, mais do que uma necessidade de responder a uma solicitação formal. Constitui-se em uma reflexão na qual se constrói nossa própria identidade enquanto Curso e como instituição: aqui, apresentam-se nossas idéias sobre a educação superior, sobre a universidade e sua função social, sobre o ensino, sobre a pesquisa e sua relação com o ensino, sobre a extensão e currículo, e sobre a relação teoria e prática. É um processo que visa, sobretudo, a busca pela melhoria constante do nosso curso e um aperfeiçoamento para que a Licenciatura propicie, dentre outros aspectos, a formação de cidadãos e profissionais qualificados que possam participar do enfrentamento dos problemas da sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, consigam sua realização profissional.